E aqui gera-se uma certa angústia em mim. De facto, não há fórmulas para a felicidade. Não há truques que se ensinem para a alcançar. Ser feliz é um objectivo nobre e natural. A única questão preocupante é que esta busca da felicidade é quase ditatorial: algo que condiciona as nossas decisões, o modo como nos relacionamos com os outros, as amizades que escolhemos, os empregos que desejamos ter. Que condiciona até a forma como nos sentimos obrigados, face à pressão social, familiar e profissional, a dizer, muitas vezes, "estou bem"; "está tudo bem", quando a resposta que nos apetecia dar era: "não estou nada bem, sinto-me perdido e não sei como fazer".
Rollo May (1958), fundador da Escola Psicoterapêutica Existencial Norte Americana, vem dizer-nos exactamente que o homem anda tão preocupado em ser feliz que está a esquecer-se de ser alegre. Estamos sempre à procura do melhor emprego, da melhor casa, do melhor carro, da melhor companhia, dos melhores amigos, da melhor condição social... de tal forma que nos tornamos escravos da nossa procura infindável. Escravos de nós mesmos e do que nos impõem (ou do que deixamos que nos imponham). Somos programados para ganhar dinheiro, para fazer amizades rentáveis, para ser excelentes trabalhadores, excelentes estudantes, excelentes amantes.
E neste ciclo somos também, ensinados a ter medo. Medo de perder, medo de não conseguir, medo de sermos considerados inúteis, medíocres, falidos, feios... E ninguém nos programa para sermos mais pessoas, para sentirmos o prazer das pequenas coisas, para abrandarmos e olharmos para os que estão à nossa volta, para termos compaixão, para ouvir atentamente quem precisa da nossa atenção, para dedicarmos tempo aos que estão fragilizados, para darmos primazia aos sentimentos, para olharmos para a natureza, para um sorriso, para as pequenas conquistas do dia-a-dia.
Se, por alguma vez, já se sentiu perdida na busca da felicidade, talvez seja conveniente permitir-se alguns luxos, um dos quais o de abrandar e o de se permitir reflectir. Reflectir naquilo que realmente procura. Talvez esteja a procurar algo que já tem, que já existe em si mesma, mas que não vê tal é a correria em que se transformou os seus dias.
Sendo assim, permita-se deixar sair as suas emoções. Sejam elas quais forem. Raiva? Deixa sair a raiva (ter em casa umas boas almofadas para bater é aconselhável). Sufoco? Deixe sair o sufoco. Mesmo que isso signifique chorar. Chorar não é sinal de fraqueza, pelo contrário, é um reflexo da sua força interior a fazer algo que necessita para a sua sobrevivência num dado momento.
É tristeza que sente? Permita-se sentir a tristeza. Se ela está a surgir é porque precisa de olhar de forma diferente para a sua vida, é porque precisa de mudanças, caminhas por vias diferentes. Custa? É verdade. Mas a tristeza faz parte da alegria. Como poderá sentir o que é a alegria sem nunca ter sentido tristeza? Aprender a conviver com a dor, e com os momentos menos bons, é uma aprendizagem que devemos fazer no sentido da nossa felicidade. É preciso estarmos conscientes de que as emoções, sobretudo as negativas, fazem surgir os nossos medos e por isso as evitamos a todo o custo.
Finalmente, permita-se sentir os momentos de alegria. Vai ver que a felicidade se constrói de forma muito simples, a partir de momentos básicos, tão básicos, que por vezes nem tomamos consciência de que estão a ocorrer. Hoje, aqui e agora, acredite em si! Faça algo por si! Nada é permanente.
Texto de: Teresa Marta, revista Saber Viver nº 121, mês de Julho 2010
Foto de: Mr David Boyd
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