domingo, 5 de julho de 2009

Zahir

Antes de dormir leiu sempre um livro, e estou agora a ler O Zahir, de Paulo Coelho.
Já estava pronta para dormir quando cheguei a uma parte interessante, e decidi partilhar, para mostrar a realidade das nossas vidas:

" O Zahir todo-poderoso parecia nascer com cada ser humano e ganhar a sua força durante a infância, impondo as suas regras, que a partir de então serão sempre respeitadas.
Gente diferente é perigosa, pertence a outra tribo, quer as nossas terras e as nossas mulheres.
Temos de casar, ter filhos, reproduzir a espécie.
O amor é pequeno, dá apenas para uma pessoa e já é uma sorte - qualquer tentativa de dizer que o coração é maior do que isso é considerada mal dita.
Quando nos casamos, estamos autorizados a tomar posse do corpo e da alma do outro.
É preciso trabalhar em algo que detestamos, porque somos parte de uma sociedade organizada e, se todos fizerem o que gostam, o mundo não anda para a frente.
Temos de comprar jóias - identificam-nos com a nossa tribo, assim como os piercings identificam uma tribo diferente.
Devemos ser engraçados e tratar com ironia as pessoas que expressam os seus sentimentos - é um perigo para a tribo deixar que um dos seus membros demonstre o que está a sentir.
É preciso evitar ao máximo dizer "não", porque gostam mais de nós quando dizemos "sim" - e isso permite-nos sobreviver em terreno hostil.
O que os outros pensam é mais importante do que o que sentimos.
Nunca faça escândalos, pois pode chamar a atenção de uma tribo inimiga.
Se se comportar de forma diferente, será expulso da tribo, porque pode contagiar os outros e desintegrar o que foi tão difícil de organizar.
Devemos ter sempre em mente como deve ficar o espaço dentro das novas cavernas, e, se não soubermos como, chamamos um decorador - que fará o melhor para mostrar aos outros que temos bom gosto.
Temos de comer três vezes por dia, mesmo sem fome; devemos jejuar quando saímos dos padrões de beleza, mesmo se estivermos esfomeados.
Devemos vestir-nos como dita a moda, fazer amor com ou sem vontade, matar em nome de fronteiras, desejar que o tempo passe rapidamente e a reforma chegue depressa, eleger políticos, reclamar contra o custo de vida, mudar de penteado, maldizer os que são diferentes, ir a um culto religioso aos domingos, ou sábados ou sextas, dependendo da religião, e aí pedir perdão pelos nossos pecados, encher-nos de orgulho porque conhecemos a verdade e desprezar a outra tribo, que adora um deus falso.
Os filhos têm de seguir os nossos passos; afinal, somos mais velhos e conhecemos o mundo.
Ter sempre um diploma da faculdade, mesmo que nunca consigamos um emprego naquilo que nos obrigaram a escolher como carreira.
Estudar coisas que nunca usamos, mas que alguém disse que era importante conhecer: álgebra, trigonometria, o código de Hamurábi.
Nunca entristecer os nossos pais, mesmo que isso signifique renunciar a tudo o que nos faz felizes.
Ouvir música baixa, falar baixo, chorar às escondidas, porque eu sou o todo-poderoso Zahir, aquele que ditou as regras do jogo, a distância das tribos, a ideia do sucesso, a maneira de amar, a importância das recompensas."

COELHO, Paulo, O Zahir

- Segundo a tradição islâmica, o Zahir é algo ou alguém que acaba por dominar completamente o pensamento, sem que se possa esquecê-lo em momento algum.

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